Na Colônia Militar Santa Thereza a primeira reforma agrária do Brasil

O Século XIX foi um século militarista, influenciado diretamente pela arrogância de Napoleão e sua tentativa de conquistar o mundo. Seu exemplo, e a tentativa de se defender de suas guerras, fez com que potências estrangeiras buscasse na militarização a defesa para abusos por parte dos franceses e outros povos.

Assim foi também com o Brasil. Entretanto, para que o Exército pudesse ser respeitado, era necessário que o seu contingente fosse respeitável. Um pequeno exército, mesmo bem armado, seria de fácil controle. Porém um exército numeroso venceria pela quantidade e resistência.

Nosso glorioso Exército, especialmente no período imperial, tinha em seus efetivos duas classes de militares: o oficialato, constituído de pessoas da etnia branca e a base do contingente militar constituída por negros libertos, pardos e pessoas de poucas posses.

O Império do Brasil contava com um poderoso exército, tanto pela qualidade de seus comandantes quanto pela persistência de seus soldados. Entretanto, o envio para as colonias militares, geralmente isoladas, era feito por recrutamento e não por ordem superior. O atrativo, para a imensa maioria, era a possibilidade de ganhar um pedaço de terra após determinado período de serviço na Colônia Militar. Poderíamos publicar inúmeros recortes de jornais demonstrando esta afirmação. A título de amostragem publicamos a matéria legal do jornal O Conservador de 28 de novembro de 1885: 

Enquanto alguns solicitavam engajamento, outros já tinham cumprido o prazo necessário para ter o seu lote de terras.

A notícia acima foi publicada no jornal O Mercantil de 31 de agosto de 1865. Este tipo de publicação legal era comum nos jornais catarinenses da época, incluindo a publicidade dos pedidos de soldados para entrega de seus lotes, demonstrando que a distribuição de terras era uma moeda de troca, entre o governo imperial e os soldados recrutados para ocupar e defender os caminhos de Desterro a Lages.

Para terminar este artigo cito a obra do historiador ADELSON ANDRÉ BRÜGGEMANN “Soldados (in)visíveis: componentes do Exército brasileiro na colônia militar de Santa Thereza (1854-1883), província de Santa Catarina” que conclue:

Desse modo, a análise dos documentos oriundos da colônia militar de Santa Thereza, e principalmente aqueles que detalham o cotidiano dos soldados que
trabalhavam na colônia, podem esclarecer aspectos importantes a respeito da composição do Exército brasileiro e as formas de recrutamento dos soldados. A concessão de terras, frequentemente encontrada na documentação da colônia, faz pensar a respeito do significado que a terra tinha para essas camadas mais humildes da população brasileira que serviram no Exército. Acredita-se que a promessa de concessão de terra para os soldados tenha sido o primeiro grande comprometimento governamental de distribuição de terras entre os brasileiros de origem humilde (BEATTIE, 2009: 79)

A prática de sucesso foi interrompida, ao que tudo indica, pela implantação da República.

Quem vem lá? – A sentinela isolada e protetora

Lages e Desterro, duas cidades de importância, uma localizada no Planalto e outra no Litoral, separadas uns 200 km entre si, com vários dias de viagem (se feita a pé ou a cavalo)… mas que tinham uma vocação comum: fazer progredir este Estado dedicado a Santa Catarina.
Um livro muito importante para leitura sobre período é Caminhos da Integração Catarinense – Do Caminho das Tropas a Rodovia BR282. Nele, António Carlos Werner descreve com minúcias de detalhes os esforços de gerações na escolha do melhor trajeto e na construção da estrada.
Em ponto estratégico na antiga ligação de Desterro e Lages, o Império do Brasil mandou erguer a Colônia Militar Santa Thereza. Foi fixado o primeiro acampamento aos pés do Trombudo e devido as condições inapropriadas da localização, foi mudado o local para o assentamento da Colônia, às margens do Rio Itajai do Sul, onde hoje se localiza o Distrito de Catuíra.
Alí foram instalados os militares que deveriam proteger quem subisse ou descesse pela primitiva estrada. Mas, quem foram estes soldados? Quem eram os guardiões da Serra?
Soldados (in)visíveis: componentes do Exército brasileiro na colônia militar de Santa Thereza (1854-1883), província de Santa Catarina” do historiador ADELSON ANDRÉ BRÜGGEMANN nos conta com detalhes em seu artigo publicado em Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 cujo texto pode ser lido na íntegra em Soldados (in)visíveis 

Nos meses de fevereiro e março de 1854 desertaram da colônia três soldados colonos (SANTA CATARINA, 1855: 10). Dos cinquenta e um militares que viviam na colônia no último mês de 1854, vinte e nove eram provenientes de Santa Catarina, sete de Pernambuco, quatro da Bahia, dois de Minas Gerais, dois de São Paulo, um do Maranhão, um do Ceará, um do Rio de Janeiro, um do Rio Grande do Sul e três da Alemanha. De todos os habitantes da colônia, oitenta pessoas eram provenientes de Santa Catarina: vinte e nove soldados, dezoito homens e trinta e três mulheres, familiares dos soldados. De Pernambuco, da Bahia, de Minas Gerais, de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Maranhão e do Ceará, nenhum dos soldados possuíra familiares na colônia. Quanto ao soldado vindo do Rio de Janeiro, este possuía esposa. Do Paraná havia somente uma mulher. Da Alemanha, ao todo eram nove pessoas, três soldados, dois homens e quatro mulheres. De Buenos Aires uma mulher e das Ilhas Canárias outra.

Praticamente todo o Brasil estava representado aqui na Colônia Militar Santa Thereza!

Continuemos:

Quanto à faixa etária dos soldados naquele ano, sete soldados tinham entre 13 e 20 anos de idade, cinco deles eram solteiros e dois casados. Vinte e sete soldados tinham entre 21 e 30 anos de idade; quatorze eram solteiros, doze casados e um viúvo. Dez soldados possuíam idade entre 31 e 40 anos de idade. Três deles eram solteiros e sete eram casados. Entre 41 e 50 anos existiam na colônia cinco soldados; um solteiro, três casados e um viúvo. Entre 51 e 60 anos de idade, havia somente dois soldados, um solteiro e outro casado (SANTA CATARINA, 1855: 10-11). Entre os soldados colonos, cinco eram carpinteiros, um era marceneiro, dois eram pedreiros, três eram oleiros, dois eram serradores, quatro eram alfaiates, um era sapateiro, dois eram ferreiros e um era barbeiro sangrador; os demais eram todos lavradores.

Podemos dizer que a jovem colônia tinha uma população também jovem em sua maioria e as profissões básicas para o progresso de um povoado encontravam representadas aqui: agricultor, carpinteiro, marceneiro, pedreiro, oleiro, serrador, alfaiate, sapateiro, ferreiro e barbeiro.

Vamos em frente:

O diretor da colônia, João Francisco Barreto, encaminhou ao referido presidente de província o mapa do pessoal da colônia relativo ao ano de 1860. Desse documento é possível extrair as seguintes informações: dos vinte e cinco soldados da colônia, quinze possuíam entre 31 e 40 anos de idade, cinco entre 41 e 50 anos, quatro entre 51 e 60 anos e dois entre 61 e 70 anos de idade. No mesmo ano, de acordo com esse mapa, lá viviam cento e quinze pessoas. Dessas, cem eram provenientes da província de Santa Catarina, cinco de Pernambuco, duas da Bahia, uma de Minas Gerais, uma do Ceará, uma do Rio de Janeiro, duas do Rio Grande do Sul, uma do Maranhão, uma de Buenos Aires e uma de Portugal (este era um soldado e solteiro) (COLÔNIA MILITAR DE SANTA THEREZA, 1860).

Em 1861 a colônia militar de Santa Thereza possuía cento e vinte e cinco habitantes. Desses, vinte e oito eram soldados colonos. De todos os habitantes da
colônia, cento e nove pessoas eram naturais da província de Santa Catarina, cinco de Pernambuco, dois da Bahia, um de Minas Gerais, um do Ceará, um do Rio de Janeiro, três do Rio Grande do Sul, um do Maranhão, um de Buenos Aires e um de Portugal.

Todas as pessoas vindas de outras províncias e países, sem exceção, eram solteiras e não possuíam familiares na colônia. Quanto à faixa etária dos moradores da colônia naquele ano: vinte e noves pessoas tinham entre 1 e 7 anos de idade; dezoito entre 8 e 12 anos; treze entre 13 e 20 anos; dezesseis entre 21 e 30 anos, dezessete entre 31 e 40 anos; doze entre 41 e 50 anos; três entre 51 e 60 anos; e, cinco entre 61 e 70 anos (COLÔNIA MILITAR DE SANTA THEREZA, 1860).

Em 1863, dos brasileiros livres que viviam na colônia, vinte e nove homens eram brancos, quarenta e cinco eram pardos e oito eram negros. Quanto às mulheres, trinta e duas eram brancas, trinta e seis pardas e quinze negras. Naquele ano havia seis escravos na colônia: dois homens e quatro mulheres. Um escravo e uma escrava tinham mais de 21 anos, os demais eram menores (SANTA CATARINA, 1863: 35).
No ano seguinte a colônia contava com cento e sessenta e quatro pessoas: oitenta e sete homens e setenta e sete mulheres. Eram livres cento e cinqüenta e oito pessoas, seis eram escravos. Dentre os livres, trinta e dois homens e vinte e nove mulheres eram brancos; eram pardos quarenta e um homens e trinta e oito mulheres; e, negros, doze homens e seis mulheres. Do total de livres, havia vinte e cinco casais e três viúvas, os demais (cento e cinco pessoas) eram solteiros (SANTA CATARINA, 1865: 29). Havia, em outubro de 1864, vinte e três soldados e sete adidos da Companhia de Inválidos (COLÔNIA MILITAR DE SANTA THEREZA, 1864a).

Em 1865 viviam na colônia vinte e quatro soldados e sete adidos da Companhia de Inválidos (COLÔNIA MILITAR DE SANTA THEREZA, 1865). Dois anos depois, conforme o mapa do pessoal da colônia militar (COLÔNIA MILITAR DE SANTA THEREZA, 1867), viviam lá vinte e dois soldados e quatro adidos da Companhia de Inválidos. Entretanto, nos últimos anos da década de 1870, a colônia contava com apenas nove soldados (COLÔNIA MILITAR DE SANTA THEREZA, 1878), ou pouco mais.

Nem tudo eram rosas na nascente colônia. As dificuldades para enviar para cá os soldados de 1ª classe, como determinava o regulamento, trouxe algumas incomodações:

Em 1855 foram retirados da colônia quatorze soldados com quatorze pessoas da família, por terem completa negação à lavoura e despenderem em puro ócio os dias que eram dedicados aos trabalhos em seus sítios (SANTA CATARINA, 1856: 11).

Alguns desertaram e se uniram aos Bugres, azedando a relação entre os colonos e os índios… Mas isto é outra história que será contada em outra ocasião.

 

O SOLDADINHO: Um Santo Desconhecido?

Placa Comemorativa no túmulo do Soldadinho
Placa Comemorativa no túmulo do Soldadinho

Pouco se sabe sobre o Soldado que está sepultado na comunidade que hoje se chama Soldadinho. Na placa sobre o túmulo está escrito:

Soldadinho
Soldadinho, sua história começa depois que foi criada a primeira colônia militar de Santa Catarina, uma das primeiras do Brasil
Naquela época foi aberta a estrada para fazer comercialização de uma região para a outra, que era na vila de Lages à Santa Tereza.
Em 1859 passavam por aqui, uma tropa de soldados que voltava da vila de Lages, com os produtos da comercialização.
Naquela época, o frio era tanto que ninguém aguentava, e naquele momento um dos soldados sentiu-se cansado, parou, sentou no chão e acendeu uma fogueira para se aquecer. Como o frio era muito, apagou o fogo o soldado morreu de frio. Minutos passaram e outros soldados sentiram sua falta e voltaram para ver o que tinha acontecido. Quando chegaram encontraram o soldado morto… E o enterraram aqui e desde então este lugar é conhecido como: 
Soldadinho…

Esta placa fornece algumas informações básicas verídicas segundo a tradição oral e outras inverídicas do ponto de vista histórico e lógico. Mas foi importante a sua colocação pois faltam informações que nos possam dar a verdadeira história do Soldadinho e por quê ele é considerado Santo.

Vamos aos fatos:
A picada aberta de Lages a Desterro possibilitou um grande progresso na região. O movimento constante de tropeiros e militares, subindo e descendo a serra obrigou o Império a constituir uma Colônia Militar onde hoje é Catuíra, para dar apoio e segurança aos que iam e vinham.
Como uma colônia Militar, Santa Thereza abrigava tropas que se deslocavam também de uma a outra região. O Duque de Caxias encaminhou para a colônia aqueles soldados da Guerra do Paraguai que haviam recebido baixa. As mulheres que os acompanhavam receberam autorização para se fixarem em Santa Thereza recebendo inclusive ajuda financeira para a viagem por ordem de Caxias.

Soldado da Infantaria Brasileira de Linha de Frente do século XIX desenho pelo desenhista e correspondente de guerra Melton Prior (1845-1910). Colorido digitalmente por Mauro Demarchi
Ilustração do equipamento de campo da Infantaria Brasileira de Linha de Frente do século XIX reproduzida a 7 de outubro de 1893 no jornal inglês The Illustrated London News, página 444, em artigo sobre a Revolta da Armada (1893-1864) sucedida nos então “Estados Unidos do Brazil”. A figura apresenta à direita um soldado em formação munido de seu rifle com baioneta; à esquerda e de cima para baixo, um quepe, um soldado a utilizá-lo e um capacete de cortiça no estilo “casque colonial” do Segundo Império Francês. A ilustração foi executada em 1891 pelo desenhista e correspondente de guerra Melton Prior (1845-1910).

Segundo a tradição oral transmitida na “Alfredo Wagner em Revista – Jubileu de Prata 1961/1986” organizada e elaborada pelo Dr. Thiago de Souza em 1986, soldados derrotados na Revolução Federalista (que separou Santa Catarina do restante do Brasil por um curto período) fugiram da cidade de Desterro para o interior, muitos buscando a Serra em direção a Lages. “Depois de vários dias de marcha já não suportavam seu próprio peso, a marcha era lenta, quando vinham pela altura do hoje local chamado Demoras, já com a tarde caindo, um deles, mais velho, mancando por causa de um pé machucado, com fome e frio foi ficando para trás. No início seus companheiros nem notaram sua ausência. Mais a frente encontraram uma porteira, era sinal de que estavam perto de alguma casa, andaram mais um pouco encontrando a residência do Sr. Nicolau Kalbusch que os recebeu dando-lhes alimentação e abrigo. Nesse meio tempo deram pela falta do companheiro, dois deles, talvez mais íntimos resolveram ir procura-lo, arrumaram tochas de taquaras e com o dono da casa foram a procura do amigo, foi em vão, a noite era muito escura e fria. Infelizmente tinham que abandoná-lo.
“Na manhã seguinte, já refeitos e bem alimentados saíram novamente a procura do colega, não levaram muito tempo encontraram-no morto, congelado, encostado a uma árvore. (…) Seus companheiros o enterraram ali mesmo, colocaram em sua sepultura uma tosca cruz de madeira para marcar o local e foram embora, nada mais podiam fazer.”
A tropa, segundo este relato, seguia em direção a Colônia Militar Santa Thereza, porém o mau tempo os obrigou a parar na fazenda do Sr. Nikolaus Kalbusch.

Túmulo do Soldadinho visto da Estrada Geral
Túmulo do Soldadinho visto da Estrada Geral

A cruz de madeira serviu de sinal para indicar onde havia sido enterrado o soldadinho, como ficou conhecido. Orações e promessas já ocorriam por quem passava pelo local. Um dia, o proprietário resolveu derrubar a mata no entorno e por fogo para preparar o campo para plantio. Tudo queimou… menos a Cruz indicativa do local onde o Soldadinho fora sepultado. O fato aumentou a devoção já existente. Pela década de 1960 foi reformado o túmulo e construída a cerca em volta. Nada consta que tenha sido feito alguma exumação.
Segundo romeiros que frequentavam constantemente a localidade para rezar e pedir graças, um padre disse que não precisavam mais ir lá pois o corpo do soldadinho fora levado por seus familiares. As romarias diminuíram após a intervenção do sacerdote, mas as pessoas continuaram a visitar o local, orando e pedindo graças.
Um apicultor, de religião luterana, me contou que fez um trato com o Soldadinho: para cada colmeia que ele pegasse, o apicultor acenderia uma vela junto ao tumulo do Soldado. Em um ano, seu apiário que tinha apenas uma dezena de colmeias, passou a ter centenas.
Outra senhora me contou recentemente, ela apesar de católica é casada com luterano e pouco frequenta a igreja, mas sempre que pode vai ao Soldadinho rezar, tendo inclusive pedido pela saúde de pessoa amiga acometida por câncer e em situação delicada.
Os casos de graças alcançadas aumentam a proporção que conversamos com as pessoas.
Mas o que diz a Igreja Católica sobre isso? Um dos párocos da cidade há alguns anos, tentou dissuadir os fiéis desta devoção. O pároco atual, Pe. Augustinho Kunen, não incentiva, mas disse em conversa com este jornalista: “Nós rezamos no Credo: Creio na Comunhão dos Santos. Mas para alguém ser declarado santo pela Igreja é preciso conhecer sua vida e realizar um grande e demorado processo”.

Chegará o Soldadinho a ser declarado Santo? O processo é muito demorado e difícil e no caso pessoal dele, mais ainda. Nada se sabe de sua vida. Portanto, relatos, escritos, nada nos aponta para uma vida de prática das virtudes heroicas mas como explicar as graças e milagres recebidos por tanta gente?
A devoção ao Soldadinho continua. Isso demonstra que lá está enterrado alguém que na sua humildade e mesmo desconhecido, é amado por Deus que atende a quem a Ele recorre através do Soldadinho.
Através deste artigo, simples, como foi a vida deste homem, prestamos uma homenagem e invocamos a Graça de Deus a todos que o lerem. Que o Soldadinho, se for vontade divina, ilumine os caminhos das pesquisas que iniciamos, para chegarmos ao conhecimento completo de sua vida e do exemplo que nos dá!

 

“Espero que vivas muitas aventuras ao lado de Eva!”

É impossível não gostar da pequena Eva personagem principal do livro de Carol Pereira: “As aventuras de Eva Schneider” lançado recentemente no I Festival de Inverno de Alfredo Wagner.

A pequena é aventureira, corajosa, inteligente, destemida… lembrou alguém?? Sim, a autora se retrata e transmite seu espirito aventureiro pelas páginas do livro.

A primeira aventura a leva conhecer o “Terrível Martinho Bugreiro”.

Este personagem da nossa história, meio bugre, cujos pais foram mortos pelos índios quando ele ainda era pequeno, nutria um ódio mortal pela etnia xokleng. Ele foi contratado pelo governo Republicano para dizimar com o povo indígena. Como era meio bugre, ele conhecia todos os hábitos e costumes dos índios e sabia como agir. O povo indígena que habitava a Serra Catarinense e o Planalto Serrano tinha origem em uma guerra fratricida. Há muitos anos atrás três ramos sobreviviam por estas terras. Um deles mudou-se para o Rio Grande do Sul e muitos séculos depois se miscigenou com os portugueses. Os dois ramos que permaneceram, um ficou na região de Lages e outro foi para a região de Blumenau. Num determinado momento da história destes povos, os índios da região lageana emboscaram os que moravam mais próximos do litoral matando, sem piedade, todos os homens da grande tribo, levando com eles as mulheres e as crianças. Talvez conhecedor deste fato, não sabemos, mas o que se sabe é que Martinho Bugreiro agia da mesma forma. Matava os índios, deixando as mulheres e suas crianças. Seu modo de agir era em tudo semelhante aos indígenas. Acompanhavam a presa sem que a mesma tomasse conhecimento que era seguida. Deixava que adormecessem… então atacava. Um de seus homens, certa vez, abusou de uma índia. Segundo contam, o próprio Martinho Bugreiro executou a sentença de morte após julgamento sumário.

Isto que eu contei não está no livro da Carol Pereira… não, eu não iria estragar o seu prazer em ler o primeiro capítulo.

O segundo capítulo fala do tesouro escondido no Campo dos Padres. Essa região, da qual Alfredo Wagner faz parte, é uma enorme extensão com as maiores altitudes da Serra Geral no Sul. Em algum lugar destas montanhas altaneiras, quando fugitivos do governo do Marques de Pombal, os Jesuítas esconderam (diz a lenda) um tesouro… e uma das aventura da Carol (digo Eva Schneider…) foi descobrir onde estava enterrado. Uma aventura que me fez pensar… será que alguma coisa não era realidade?

O terceiro capítulo desta emocionante aventura, tem um dedinho meu… No desenho que abre o capítulo (e na capa do livro também), aparece a figura de um soldado da década de 1850. Pintei digitalmente este desenho, utilizando outro feito a bico de pena que encontrei na internet. O Soldadinho é o nosso Santo. Ele tem uma história muito triste que é contada de geração em geração, mas se desconhece o seu verdadeiro nome, origem e família. Numa noite gelada, contam os antigos, um pelotão fugido de Desterro se encontravam na Estrada das Demoras, perto da Colônia Militar Santa Thereza, quando a nevasca aumentou. Um soldado, já doente, foi ficando para trás. Quando os seus companheiros chegaram no destino notaram que ele não estava junto deles. Voltaram até uma certa altura, mas era tanta neve que tiveram que desistir das buscas. No dia seguinte, encontraram o soldadinho morto congelado, tentando acender um maço de palha para se aquecer. Ali mesmo o enterraram e começaram as peregrinações ao túmulo que foi sendo, ao longo do tempo, reformado e melhorado. O local conhecido como Soldadinho, já foi mais visitado, até que um padre, disse que o corpo do soldado não estava mais lá, que tinha sido levado pelos familiares. De onde ele tirou essa informação, nunca disse. O certo é que após este dia os devotos foram escasseando. Hoje ainda vai gente lá rezar e pedir as graças ao Soldadinho.

Não vou analisar cada capítulo, não… mas convido o leitor a conhecer:

  • O presente da Imperatriz
  • O amigo Katze
  • Quebra Dentes e a lenda do tesouro inca
  • Lembranças de uma tarde chuvosa
  • O reencontro
  • A cobra e a bruxa
  • A erva rejeitada por Deus
  • Eterna em seu coração
  • O enigma da ponte
  • Der geburtstag, ostern e o Nego Tony
  • Retorno às raizes
  • Antes do presente
  • O mistério da bica-d´água
  • Lar é onde estou com vocês
  • A casa mal-assombrada
  • As bruxas da Ilha de Santa Catarina
  • O final do segredo
  • A arca de Tutankâmon – I e II
  • Dou graças

Eu me encantei com os personagens e a escolha de cada um. Sabu e Ceci, preferiram morar com Tio Albert e Tia Matilda apesar de sentiram atração pela volta à vida indígena. O Frei Angelo, um verdadeiro homem de Deus. Até a papagaio bijuca é encantador.

Leia o livro! Tenho certeza que você vai gostar! Depois me diz se eu não tinha razão…

Não jogue fora suas memórias e recordações

NÃO JOGUE FORA SUAS FITAS DE VIDEOCASSETE!
Elas podem ser limpas e as imagens gravadas podem ser recuperadas e digitalizadas em DVD ou em Pendrive. Não jogue fora suas lembranças de aniversários, batizados, casamentos, festas, etc. Recupere suas fitas de videocassete. Sigilo e Competência!

Abaixo um exemplo de vhs digitalizada com cenas do Baile de Debutantes de 1986.

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A volta ao mundo de lambreta

José Ferreira da Silva - O Aventureiro
José Ferreira da Silva O Aventureiro

 

O livro de José Ferreira da Silva “O Aventureiro, A volta ao mundo de Lambreta” é cativante. Recomendo a leitura. No momento em que parei para redigir esta nota, o autor estava saindo de Nova Delhi querendo chegar na fronteira com a China para visitar as famosas muralhas.
Livro escrito em pequenos capítulos com descrição de suas grandes aventuras. O drama humano perpassa cada página desta obra. Vale a pena ler. O autor, José Ferreira da Silva é membro da ALE Associação Lageana de Escritores e doou seu livro para a Associação Academia de Letras do Brasil/SC – municipal Alfredo Wagner.
O “Aventureiro” parte de Porto Alegre e vai em direção ao Uruguai, de lá entra na Argentina, sobe a cordilheira dos Andes, entra no Chile e assim percorre as Américas, Europa, parte da África e da Ásia.
Enfrenta o frio congelante e o calor escaldante. Dorme ao relento, enfrenta animais peçonhentos e a indiferença humana.
Uma aventura de tirar o fôlego de quem lê.
Quando José Ferreira da Silva entrou no Chile, atravessando os Andes, foi obrigado a dormir lá encima pois anoiteceu e não haveria tempo de chegar na próxima cidade. Sem alojamento naquele local, passou a noite ao pé de um Cruzeiro. Algumas vezes ele foi acordado por tremores que perpassava seu corpo. Temendo que havia chegado seu momento, redigiu uma carta a seus familiares, informando seus últimos desejos. O autor acabou pegando no sono e quando acordou no dia seguinte ficou surpreso por não ter morrido. Comentou com um guarda que apareceu e ficou sabendo que eram os tremores da montanha. Imperceptíveis estes tremores só são sentidos quando a pessoa está deitada.
Na Índia, certa noite, tendo a noite o encontrado na estrada, foi obrigado a buscar um abrigo para dormir. Encontrou uma gruta na qual se escondeu. No dia seguinte, ao retirar a lambreta da entrada, colocada para proteger e não permitir que algum animal o surpreendesse, uma Naja saltou da lona… Bem, a história continua, mas é melhor ser lida neste delicioso livro.

Meu Pai, Alcindo Demarchi

Alcindo Demarchi era natural de Pedreiras, São Paulo, filho de Francisco Demarchi e Elisa Masson, Era neto de Giacomo Giovani De Marchi, italiano que veio com a. imigração de 1887. Casou-se com Lahir Catarina Vano. Teve quatro filhos: Francisco António Demarchi, Fani Aparecida Demarchi, eu, e Marcos Tadeu Demarchi.
A última vez que o ví, foi em agosto de 1964. Eu tinha 7 anos e ainda era pequeno e não alcançava o caixão que estava sobre uma mesa na sala da nossa casa no Jardim Paulista em São José dos Campos.

Ainda me lembro da sensação profunda de perda, e, o que mais me preocupava, de um futuro incerto.

Quantas vezes senti a falta dele, mesmo fingindo que eu era grande o bastante para me cuidar sozinho.

Eu era pequeno. mas sabia o quanto significava ser filho de Alcindo Demarchi. Ele era muito católico, querido por todos, honesto nos negócios e muito trabalhador. O Jornal da Diocese de Taubaté, O Lábaro, (na época S. José dos Campos ainda não era diocese). publicou uma biografia e a prefeitura colocou o nome dele numa rua num dos acessos ao bairro onde morávamos. Era um dos líderes da comunidade católica local participando
ativamente da Conferência Vicentina, da Congregação Mariana.

Morreu vítima de uni acidente de trabalho, rodeado de amigos e segurando as mãos de minha mãe recomendando muito a educação dos filhos

Minha mãe cumpriu a risca esta recomendação nos dando uma educação rígida, mas facilitando o acesso ao estudo e a cultura. Ela assumiu o papel do pai que perdemos.

Quando chega o dia dos pais eu não penso tanto na perda pois o que para mim parecia um futuro incerto, foi na realidade um passado cheio de realizações.

Penso no exemplo dele e na recompensa que certamente recebeu por ter sido bom e justo durante a vida,

Que do Céu onde ele está, junto de Deus, ajude a todos os filhos que perderam seus pais e sentem a falta que eles fazem. Ajude a mim também que tanto sinto a falta dele.

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Os Decretos na história da Capital das Nascentes

A vida dos povos costuma se desenvolver em dois aspectos: o público (político) e o privado. Não é diferente com nosso município.

A vida particular das pessoas (envolvendo também a vida das comunidades) segue num misto de trabalho, sonhos e planejamentos. O que marca a vida de pessoas e comunidades são nascimentos, mortes, casamentos, festas, o plantio e a colheita, etc.

Já a vida política está fixada na manutenção da ordem e desenvolvimento social e econômico e suas ações são expressas através de decretos. Decretos que podem ser a nível nacional, estadual ou municipal.

Três decretos marcam a história de Alfredo Wagner, a Capital Catarinense das Nascentes e que, provavelmente, você desconhece.  Um decreto Imperial e dois Estaduais figuram na história política do município e devem ser anotados e suas datas guardadas.

O primeiro dos decretos foi redigido por ordem do Imperador Dom Pedro II. Assim relata o Presidente da Província de Santa Catarina, João José Coutinho, em sua Fala à Assembléia Legislativa, transcrito no jornal O Conservador de 12 de maio de 1854:

 

S. M o Imperador sempre solicito pelo bem estar de todos os seus subditos. Houve por bem crear por Decreto nº 1266 de 8 de Novembro do anno proximo findo uma Colonia Militar na estrada de Lages, com o duplo fim de proteger os moradores da mesma estrada, e as pessoas que por ella transitao contra as excursões dos Índios selvagens e de servir de centro, e nucleo de população.

Os primeiros soldados colonos que d´aqui partirão em numero de 19 chegarao ao trombudo, lugar escolhido para assento da Colonia, no dia 11 de janeiro último; outros tem seguido por vezes, e devem lá existirem 41 individuos entre soldados, e suas familias, acha-se tambem n´ella d´esde 8 de Fevereiro proximo findo um facultativo, e os medicamentos precisos para o tratamento dos que adoecerem.

Alem da Colonia central composta de 41 praças de pret, foi autorizado a colocar em outros pontos da mesma estrada, dois destacamentos filiaes a Colonia, composta cada um de 11 praças.

Como he do meu dever, não pouparei esforços para que essa colonia progrida, e em breve principie a prestar a Provincia os beneficios que d´ella com razão se espera.

 

 

Eis o decreto de Sua Majestade o Imperador Dom Pedro II criando a Colônia Militar Santa Thereza:

O decreto imperial é mais conhecido, visto ser o primeiro documento oficial a respeito da nossa terra. Mas além desse existem outros.

O segundo documento que resgato dos porões da história para a publicidade é a primeira menção a “Catuíra” nome que substituiu o de Colonia Militar e de Santa Thereza.

Uma nota, sugestiva, publicado pelo jornal A Notícia de Joinville, de 4 de Janeiro de 1944, alertava aos catarinenses:

VAE MANDAR A SUA CORRESPONDENCIA

Verifique primeiro a troca de nomes das cidades vilas e lugarejos

No quadro anexos do decreto-lei que fixa a divisão administrativa do Estado, publicados na edição de 21 de dezembro  do Diario Oficial, encontramos as novas denominações que couberam a vários municípios, cidades, vilas e localidades catarinenses.

São elas as seguintes: (…) Catuira (ex-Santa Tereza) no Município de Bom Retiro; (…)

 

Por fim, lembremos da Lei nº 806 de 21 de dezembro de 1961 criando o município de Alfredo Wagner:

 

 

O Deputado João Estilavet Pires Presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina de conformidade com o disposto no ….. da Constituição do Estado, faz saber que a Assembléia Legislativa decretou e eu promulgo a seguinte lei: 

Art. 1 º – Fica, de conformidade com a Resolução nº 5/61, de 20 de dezembro de 1961, da Câmara Municipal de Bom Retiro, criado o Município de “Alfredo Wagner”.

Art. 2º – O Município de Alfredo Wagner será composto dos territórios dos distritos de Barracão e Catuíra (…)

Art. 3º – Ficará o Município de Alfredo Wagner pertencendo a Comarca de Bom Retiro. fixando-se a sua sede no atual distrito de Barracão que passa a denominar-se Alfredo Wagner.

 

De decreto em decreto e de lei em lei vai crescendo a antiga Colônia Militar Santa Thereza, atual Alfredo Wagner, a Capital Catarinense das Nascentes.

E agora Brasil?

Leio, as vezes, algumas opiniões favoráveis a volta dos militares. Vamos analisar com frieza a proposta. Os militares foram bons administradores, é verdade; desceram o sarrafo no cangote de alguns terroristas… também é verdade; construíram estradas de rodagem, pontes, etc o que também é verdade! Tudo isso é verdade, mas esqueceram algo muito importante: a religião, a imprensa e as universidades! Deixaram a “intelectualidade” de esquerda formar seus filhos e netos; deixaram que a esquerda proliferasse nos meios de comunicação (manipulando a informação) e não souberam e nem quiseram reverter a esquerdização dos meios católicos.
Temos que pensar diferente! Clamar por um governo militar só agravará a situação pois eles não são capazes de lidar com a guerra psicológica em que a Esquerda é hábil.
No meu ponto de vista pessoal a solução para o Brasil deve ter algumas fazes:
a) fechamento imediato do congresso e dos partidos político e confisco dos bens enquanto houver o julgamento.
b) Monarquia Já! Restauração do Império do Brasil como Poder Moderador;
c) convocação de novas eleições, excluindo todos os eleitos a qualquer cargo (incluindo presidente de sindicato, de associação, etc) num prazo de 30 anos.
d) desmoralização, através da mídia de todos aqueles que levaram o Brasil a este fundo do poço, seja político, religioso ou militar!
Reestruturação do ensino universitário, fechamento de sindicatos e de seminários de esquerda, seriam etapas a cumprir ao longo do tempo.
Por ser uma questão de segurança nacional, o Tráfico de drogas, deveria ser controlado pelo Exército Nacional, impondo, inclusive a lei marcial se necessário.
Você que teve a paciência de ler até aqui, obrigado pela sua atenção.
Que Nossa Senhora Aparecida salve o Brasil!

A vida das abelhas – Capitulo III

Capitulo III do meu livro
Capitulo III do meu livro “Aprendendo com as abelhas”

1. Vai, ó sociólogo, ter com as abelhas…

De fato, leitor, reina ordem impressionante numa colmeia. Aliás, genericamente, em todo o reino animal. Por isso, um sociólogo que após observar os homens, seus diversos modos de encarar a vida, a política e a organização social, procurasse deitar sua atenção sobre os animais, não perderia seu tempo, mas descobriria muitas analogias e poderia até dar um desenvolvimento maior a seus estudos. Porventura, não diz o Espírito Santo no livro dos Provérbios, “Vai, ó preguiçoso, ter com a formiga, e considera o seu proceder, e aprende dela a sabedoria” (Prov. VI, 6)? Com quanta propriedade poderíamos também dizer: vai, ó sociólogo, ter com as abelhas e lá aprenderás que o homem pode viver feliz no convívio com seus semelhantes. Evidentemente, não poderíamos aplicar ao homem, ponto por ponto, o estilo de vida das abelhas. Para começar, numa colmeia todos os elementos são do sexo feminino, e em certas épocas os zangões são simplesmente eliminados… Outros pontos poderiam ser ressaltados que não vêm ao caso no momento.

No que, então, o estudo da vida das abelhas pode servir como admirável fonte de inspiração para o relacionamento humano? A vida de família, a dedicação de cada membro dessa família, o esforço generoso e atento no cumprir cada qual sua obrigação, a solidariedade e a ajuda mútua dos membros dessa família, a vigilância e o ataque intrépido em defesa da colmeia etc. A maravilhosa organização da vida da colmeia é apenas um símbolo, caro leitor, daquilo que poderia ser o relacionamento social dos homens operosos, desprovidos de inveja e dispostos a cooperar, cada qual segundo suas aptidões, para o bem estar geral.

2. Como funciona o reino maravilhoso das abelhas

Isto dito, voltemos à vida da colmeia.

  • Onde tudo começa…

Tudo começa com um pequeno ovo depositado numa célula especial, chamada realeira. A rainha, já velha e pressentindo seu fim, ou observando que o espaço onde mora o enxame tornou-se exíguo, ali botou um ovo com vistas ao nascimento de uma nova princesa. Suas súditas armazenam, na principesca celazinha, a geleia real que irá alimentar a futura rainha, enquanto passar sucessivamente pelas fases de larva, pupa e, por fim, de ninfa, quando, roendo o seu casulo, sairá à luz do dia. Normalmente, há mais de uma realeira, e a princesa ao nascer terá que disputar a realeza com outras. Vencerá a mais apta, mantendo assim as melhores características genéticas do enxame. Ao nascer, sua corte já está formada e procurará defendê-la das outras princesas. Caso o enxame seja muito grande, poderá haver divisão, partindo as várias princesas para direções opostas, ficando apenas uma na colmeia.

Acompanhemos um enxame já estabelecido, cuja rainha velha morreu poucos instantes antes de nascer a princesa. Um enxame, sim, porém não um desses de laboratório, ou supercontrolados. O enxame de abelhas que vamos acompanhar está na natureza, será mais adiante capturado por você, leitor, e por mim, mas por enquanto ele habita um cupinzeiro abandonado pelos seus primitivos moradores.

  • Morre a rainha, centro da vida do enxame

A rainha acaba de morrer. Durante cinco anos, aproximadamente, ela foi a mãe, a coordenadora e o centro de todo o enxame. Sua alimentação foi sempre especial, só geleia real, o que lhe possibilitou viver todo esse tempo, quando as abelhas comuns, chamadas operárias, vivem 48 dias em média. Sua fecundidade, que em certas ocasiões chegou a 2 mil ovos por dia, também depende desse alimento(ver nota 1). Mas agora ela morreu. A corte, que a seguia por toda parte, procura reanimá-la. Em vão. Daí a consternação geral da colmeia. A rainha já não passa para as outras abelhas o seu odor característico, e estas, notando sua falta, choram. Não com lágrimas, por certo. Mas com um zumbido tão triste que, quem o ouviu algum dia, fica impressionado. A rainha está morta. Se não houvesse uma realeira e não estivesse para nascer uma nova princesa, o que aconteceria? Em primeiro lugar, haveria agitação inusitada e agressividade anormal. O passante, animal ou pessoa, tomado como responsável pela morte da rainha, seria incontinenti atacado. Em seguida, à agitação sucederia angústia desconcertada. Uma ou outra operária, contrariando a regra, ingeriria geleia real e daria início à postura de ovos. o que acalmaria momentaneamente o enxame. Mas, sendo ela virgem e não fecundada, seus filhos seriam apenas zangões. E, por essa forma, o enxame estaria condenado a desaparecer, pois zangões não são capazes de cumprir as funções próprias das operárias.

  • A princesa, suas rivais e seus príncipes

Mas não é esse o caso de nossa colmeia. Uns dias mais, e do mencionado ovinho nascerá uma princesa. Se ela for a primeira, com seu ferrão cortará as outras realeiras, matando as rivais. Senão, terá que defrontar-se com elas, fazendo valer sua astúcia, força e valentia. Já prevendo a necessidade de um príncipe para sua princesa, as abelhas, mais especificamente as que ficam de guarda à entrada da colmeia, permitem o acesso de diversos zangões. E numa bela manhã, finalmente, a jovem princesa sai para seu primeiro voo nupcial, acompanhada de sua corte e inúmeras abelhas da colmeia. Os zangões também levantam voo, mas vencerá o que for mais ágil e veloz. A princesa, agora rainha, poderá acasalar-se outras vezes. Mas por ora, ela e sua corte retornam à colmeia. Os zangões, porém, são barrados à entrada do cupinzeiro, onde o enxame está alojado. Se forem atrevidos, serão expulsos ou terão as asas cortadas.

  • O reino tem inimigos!

A vida retorna ao ritmo normal… Mas não demora muito, um rato do campo, para fugir de uma coruja, penetra no cupim. Seu mau cheiro incomoda a sentinela, que soa o alarme. Então, um exército de guardiãs, em plena carga de cavalaria, descarrega sua cólera contra o invasor. O poeta Virgílio, já citado, assim cantava essa estratégia: ”Sente-se logo ali na alvorotada turba – ser bélico furor que a agita, inflama e turba. – Um como de clarins intrépido rebate – daqui, dali, concita as frouxas ao combate. – Prestes se apinha o bando, e se resolve e freme: – um relâmpago de ouro em suas asas treme; – com as bocas os ferrões aguçam diligentes; – exercitam os pés; fiéis e inteligentes – condensando-se em torno à chefe e à régia tenda – chamam com grã clamor as outras à contenda “. E, mais adiante, ele acrescenta que as”… hostes abaladas mostram ânimo grande em pequenino peito; – inflama-as o valor, enraiva-as o despeito” (Ver nota 2). De todos os lados surgem elas, atraídas pelo característico cheiro que a sentinela exala ao conclamar as companheiras para o ataque. O rato do campo, que se refugiara no cupim, parte em disparada, acossado por algumas das ferozes guardiãs.

De sorte que, se não for muito rápido na corrida, cara lhe resultará sua intrusão.

  • A iracunda irara e outros mais

Todavia, o enxame conta com outros inimigos. E se hoje foi um rato, noutra ocasião será uma irara. E as sentinelas percebem, pelo seu odor acre, que nessa noite a irara resolveu variar o cardápio. O leitor me permite um parêntese? Já conhece a irara? Ainda não? Então passo a apresentá-la. Nossos índios a chamam ira-nara. Ira, em tupi, quer dizer mel e a repetição do rá significa mel, mel, ou seja, muito mel (ver nota 3). É um animal que pode chegar a 110 cm de comprimento, que gosta muito de mel, e cujo habitat abrange o Brasil inteiro e chega até o México. Jean George acrescenta, em Animais de “A” a “Z” (ver nota 4), que “além de mel, come pássaros e seus ovos. Quando, porém, nada disso encontra, e a fome aperta, não recua ante atacar animais de regular tamanho. Mata muitas vezes só para chupar o sangue e pode fazer verdadeiras devastações nos galinheiros”. É, portanto, um bichinho valente. Um desses, exatamente, resolveu comer o mel de nossa colmeia. Pouco importa às guardiãs a valentia da fera. Elas, sempre vigilantes, ouvindo algo que começa a raspar a entrada do cupim, e, depois, sentindo o odor da irara, batem as asas recomendando às companheiras a prontidão para o ataque. E ataque a bicho grande. Com efeito, mal as batedoras saíram para reconhecer a “visita”, voltam e tocam o alarme, um exército sai do cupinzeiro e ataca o animal por todos os lados onde pode. Se cochilou e as picadas foram demasiadas, era uma vez uma linda irara, de negra e luzidia pele… Porém, não são apenas o rato e a irara os inimigos do enxame. Entre outros mais, destacam-se os sapos, as formigas, especialmente as doceiras, ou as aves como o bem-te-vi do “seu” Jan etc etc.

Dá a impressão, pela descrição acima — diria talvez o meu paciente leitor —, que o rato, a irara etc., não têm condições de vitória e sempre se saem mal. É certo isso? O certo é que se os predadores acima citados resolverem atacar um enxame forte, correrão sério risco de vida. Um enxame com 60 mil ou 80 mil abelhas, considerado um enxame normal, tem cerca de 10% de guardiãs dispostas a tudo sacrificar em defesa da colmeia. Páreo difícil para um animal pequeno. Mas um enxame fraco com menos de 10 mil abelhas, não contará com defensoras suficientes, no caso do ataque de algum predador, pois, se o ataque ocorrer durante o dia, a maioria das abelhas estará fora coletando pólen, néctar ou própolis. Se ocorrer à noite, apesar de ser maior o número de defensoras, ainda poderá não ser suficiente contra um animal do porte da irara ou do tatu.

Não se deve pensar que num ataque — sempre em legítima defesa — o enxame fica sem mortos do lado das abelhas. Não. Cada abelha que pica o inimigo deixa na pele do mesmo o ferrão com parte de seu corpo, e morre em decorrência disso. Pois o ferrão, que tem a forma de um arpão, quando entra numa superfície elástica, não sai. Por isso, o ataque só é efetuado quando a abelha estima, acertadamente ou não, que o inimigo está pondo em jogo a sua vida ou a vida do enxame. E que, portanto, para salvação própria ou do todo, não há por que recuar diante da morte. Belo símbolo de dedicação, não acha, leitor? Certo dia, uma abelha dessa colmeia cuja vida estamos acompanhando, estava coletando néctar no alto de um eucalipto, quando sentiu a árvore abalar e logo em seguida cair. Acompanhava toda esta operação um ruído nunca ouvido por ela. A colmeia encontrava-se instalada num cupinzeiro existente no meio de um eucaliptal que, afinal, seria cortado. Os lenhadores, desconhecendo a existência de um enxame nas proximidades, cortavam as árvores com motosserras, inquietando o enxame. Quando um deles passou em frente do cupinzeiro para calcular o ângulo do corte de uma árvore, foi recepcionado por uma abelha que o atacou diretamente no rosto; logo em seguida outras o perseguiram e ele desatou a correr, alertando seus amigos que também debandaram. A ocorrência não altera o ritmo de vida normal do enxame.

  • Prepare-se, leitor, pois vamos capturar esse enxame

Entretanto, no dia seguinte, uma movimentação inusitada, desconhecida, põe o enxame em alvoroço.

Fumaça! Será incêndio?!

O alarme corre célere.

Onde há fumaça, há fogo; logo, se há fogo, ou o enxame se apressa em mudar, ou ele morre. Não há tempo a perder. A grande maioria das operárias corre direto aos favos de mel e néctar, e tomam quanto podem. A razão é simples: sendo o mel a matéria necessária para a confecção dos favos, sentindo a fumaça, a primeira providência a tomar é sorver todo o mel possível para ter com que reconstruir a colmeia em outro lugar.

  • A legítima defesa

Não se deve pensar que num ataque — sempre em legítima defesa — o enxame fica sem mortos do lado das abelhas. Não. Cada abelha que pica o inimigo deixa na pele do mesmo o ferrão com parte de seu corpo, e morre em decorrência disso. Pois o ferrão, que tem a forma de um arpão, quando entra numa superfície elástica, não sai. Por isso, o ataque só é efetuado quando a abelha estima, acertadamente ou não, que o inimigo está pondo em jogo a sua vida ou a vida do enxame. E que, portanto, para salvação própria ou do todo, não há por que recuar diante da morte. Belo símbolo de dedicação, não acha, leitor? Certo dia, uma abelha dessa colmeia cuja vida estamos acompanhando, estava coletando néctar no alto de um eucalipto, quando sentiu a árvore abalar e logo em seguida cair. Acompanhava toda esta operação um ruído nunca ouvido por ela. A colmeia encontrava-se instalada num cupinzeiro existente no meio de um eucaliptal que, afinal, seria cortado. Os lenhadores, desconhecendo a existência de um enxame nas proximidades, cortavam as árvores com motosserras, inquietando o enxame. Quando um deles passou em frente do cupinzeiro para calcular o ângulo do corte de uma árvore, foi recepcionado por uma abelha que o atacou diretamente no rosto; logo em seguida outras o perseguiram e ele desatou a correr, alertando seus amigos que também debandaram. A ocorrência não altera o ritmo de vida normal do enxame.

Outra providência tomada, imediatamente após o sinal de fumaça, é a expulsão da mesma, mediante corrente de ar formada com o bater das asas. Essa corrente de ar é tão forte que, além de expulsar a fumaça que já entrou, impede a entrada de nova onda.

Mas hoje as precauções serão vãs. As guardiãs, pesadonas devido a tanto mel ingerido, ficam impossibilitadas de utilizar o ferrão e nos permitem capturar o enxame. É um golpe. Mais outro. Eis que a picareta rompe o cupinzeiro e deixa à mostra grandes favos cobertos de abelhas, repletos de crias, pólen e mel. As poucas abelhas que não ingerem mel, mas mantêm-se vigilantes, continuando agressivas, incomodarão ainda um pouco, contudo não conseguirão impedir nosso trabalho.

  • Destruído o cupim, separamos os favos com mel dos favos com cria

Sua primeira providência, leitor — sim, sua, pois você me ajudará a capturar esse enxame —, será separar o mel e depositá-lo num balde à parte, cobrindo-o com um pano úmido. Isso evitará que as abelhas, atraídas pelo cheiro do mel, nele se afoguem. Enquanto isso, vou, com muito cuidado, cortar os favos de cria e prendê-los nos quadros.  Alguns apicultores utilizam elástico, outros barbante, outros ainda pregam pequenas ripas nas transversais do quadro.

Nós simplesmente os prenderemos entre os arames do quadro. Completada a capacidade da colmeia Standard que trouxemos para alojar as abelhas, vamos guardar o restante dos favos com cria para fortalecer algum enxame de nosso apiário, ou os destruiremos para não atrair formigas.

Certamente o leitor observou que as abelhas, até há pouco agressivas, perderam o ímpeto e já não se ocupam de nós.

– Sim, mas qual a razão?

A razão é que, tendo sido destruída a propriedade que lhes pertencia e, portanto, nada mais restando, não há por que brigar por ela. O importante agora é aglutinar-se em torno da rainha e segui-la.

– Onde estará ela?

Observe que todas as abelhas se encaminham para a ponta do cupim. Elas foram informadas de que a rainha lá está e para lá se dirigem.

  • Seguir a rainha, agora, é o que importa

Ao tentarmos pegar a rainha, ela levanta voo, logo seguida por todas as suas súditas, e o enxame pendura-se num galho. Destruído o cupinzeiro, colocamos a caixa sobre o local, cortamos o galho, e damos uma boa chacoalhada, até que todo o enxame caia dentro da caixa. Tampamos. E no alvado (a “portaria” da colmeia) colocamos uma gradezinha para impedir que a rainha saia e abandone o local. As abelhas, por serem menores, entram e saem facilmente, mas a rainha por ter o abdómen muito grande, não o consegue. Não saindo a rainha, o enxame permanece.

Note o leitor as abelhas que estavam fora. Elas penetram na caixa sem necessidade de serem empurradas: a rainha lá está. O enxame aí ficará até que o levemos para nosso apiário. Mas quer o deixemos, quer o levemos, a colmeia começará uma série de reformas internas: colagem dos favos nos quadros, vedação das frestas da caixa, confecção de novos favos para os quadros vazios, limpeza da caixa que inevitavelmente ficou com um pouco de terra e folhas secas etc. A destruição, no entanto, foi para melhor. Algumas abelhas, tendo feito uma verificação do aspecto exterior da nova moradia, trouxeram a tranquilizadora informação de que ela está sobre um suporte suficientemente alto para que o malcheiroso tatu não possa meter o focinho dentro; nem a iracunda irara poderá subir e rasgar os favos; e muito menos a terrível e temível formiga doceira poderá atravessar a proteção do suporte para levar embora mel e crias novas.

  • “Fazer cera” dá trabalho…

Refazer os favos… tarefa que exige paciência e muito mel. Para cada quilo de cera, as abelhas gastam de 6 a 8 quilos de mel, segundo Wolfgang Bucherl, do Instituto Butantã (ver nota 6), opinião, aliás, corrente entre os apicultores. Nossa colmeia tem necessidade de completar os favos que ficaram presos nos quadros de madeira e de fazer novos nos quadros vazios. As abelhas que ingeriram o mel durante a destruição do cupinzeiro formam, a partir do alto do quadro, uma cortina, agarradas umas nas outras pelas patas, e nessa posição ficam durante 24 horas, tempo suficiente para que a cera seja processada nas glândulas cericígenas. A temperatura interna, sobretudo onde estão as fazedoras de cera, se eleva a 55 graus. Quando oito plaquinhas começam a sair do abdómen da abelha, esta as recolhe, amassa-as com as mandíbulas, e, dirigindo-se para o alto do quadro, afasta as abelhas que lá estão, e na trave de madeira gruda sua porção de cera. É seguida, logo após, por outras que sucessivamente vão depositando sua contribuição. Nesse momento, entram em ação as abelhas-arquitetas, encarregadas de conduzir a construção dos favos. Examinam a cera, apalpam-na e dão início à construção do alvéolo hexagonal. Cada decímetro quadrado conterá, segundo Bucherl (Ver nota 7), 850 alvéolos para operárias, e 530 se forem alvéolos para zangões.

  • A mudança

Certo dia, ao cair da tarde, novo alarme percorre a colmeia: fumaça! Nova correria para os favos de mel, novo esforço para expulsar a fumaça. Só que desta vez não haverá destruição. A fumaça apenas desvia a atenção do enxame enquanto tapamos a abertura do alvado para podermos transportar a colmeia com segurança até nosso apiário. Ao parar definitivamente o sacolejar, as abelhas sentem uma lufada de ar fresco penetrar a colmeia pelo alvado recém-aberto. As guardiãs saem para verificar o que acontecera, mas em torno é só escuridão. No dia seguinte, nova surpresa: o local já não é mais o interior de um eucaliptal, mas um apiário bem montado, com dezenas de outras caixas semelhantes, de onde entram e saem a todo instante milhares de outras abelhas. O leitor que desejar poderá obter maiores informações sobre a captura, transporte e instalação de enxames no Apêndice, Roteiro para principiantes…

  • Notas

Nota 1: A rainha pode fecundar ou não cada ovo, ao colocá-lo no alvéolo. De um ovo fecundado nascerá uma operária e de um não fecundado nascerá um zangão.

Nota 2: Op. cit.,pp. 213-214.

Nota 3: Cfr. Prof. Silveira Bueno, Grande Dicionário Etimológico Prosódico da Língua Portuguesa, Ed. Saraiva, São Paulo, 1985, vol. 4, p. 1986, verbete “Irara”.

Nota 4: Cfr. Maravilhas e Mistérios do Mundo Animal, Seleções do Reader’s Digest, Rio de Janeiro, 1966, p. 303.

Nota 5. Quadros – palavra usada no vocabulário apícola para designar a moldura de madeira onde as abelhas fazem os favos. Esse quadro permite que cada favo possa ser retirado e reposto na colmeia, independentemente.

Nota 6. Wolfgang Bucherl, Acúleos que Matam, Livraria Kosmos Editora, São Paulo, 1980, p. 79.

Nota 7. Op. cit., p. 98.

Capitulo III do meu livro Aprendendo com as abelhas a viver em sociedade, editado pela Artpress Editora, São Paulo, 1995.