Quando eu era pequeno, nas férias de fim de ano e de julho, visitava com meus irmãos a casa dos meus avós paternos, Francisco Demarchi e Elisa Masson. Amava ir lá, meus avós, queridíssimos, sempre contavam estórias da família ou de antigamente.

Certa vez, lembro como se fosse ontem, sentado no colo da minha avó, a ouvi contar a lenda do coração de pedra.

Há muitos séculos atrás, veio parar no litoral brasileiro um naufrago. Sozinho e abandonado pensou que estava no paraíso quando despertou cercado por lindas índias de pele bronzeada. A todo instante agradecia a Deus a nova chance de resgatar sua vida de roubos e pilhagens.

Levado para a aldeia, foi assimilando os costumes e modos de falar do acolhedor indígena.

No sufoco do naufrágio ele prometera a Deus que mudaria de vida e seria outra pessoa! De irascível, tornou-se manso. De ganancioso, tornou-se dadivoso. De lúbrico, tornou-se respeitador e fiel.

Na aldeia era sempre o primeiro a ajudar, Forte e grande como era, os trabalhos mais pesados eram sempre destinados a ele.

O cacique oferecera a ele a índia que quisesse, mas ele agradecia e se recusava a aceitar.

Seu olhar, quando seus olhos se abriram após o naufrágio, encontrou o olhar da índia mais bela deste lugar e seu coração logo se apaixonou, prometendo amor eterno.

A troca de olhares foi suficiente para que o naufrago percebesse que a bela índia também o amou no primeiro instante. Não demorou muito para ele notar que a bela índia, filha do cacique, estava reservada ao mais forte dos guerreiros da aldeia.

A paixão entre os dois só aumentava. Num encontro fortuito e sem muitas palavras, a índia propôs a fuga.

Apearô, apearô, foi a resposta do naufrago.

O cacique gostava daquele naufrago. Era um amigo para as caçadas, um apoio nos momentos de perigo e, como pai que era, sabia do amor secreto entre sua filha e ele. Não gostava, pelo contrario, do índio mais forte e guerreiro e temia sempre que de um momento ou outro este lhe roubasse seu poder na aldeia.

Uma noite o naufrago foi acordado pelo cacique que lhe comunicou: Vocês correm perigo! É hora de fugir!

A índia Aninga, vira o momento de confidências e as trocas de olhares entres eles e rancorosa pela beleza da filha do cacique, fizera intriga pela aldeia e o valentão do índio mais forte prometera matar o naufrago.

Recolhendo umas poucas coisas os dois apaixonados fogem pela mata, cujos perigos, naquele momento, eram menores que aqueles que os aguardavam no dia seguinte.

Fugiram toda a madrugada, um dia inteiro e toda uma noite, tendo ao encalço os capangas do índio mais forte.

Cansados, os fugitivos se preparavam para atravessar um rio quando ouviram gritos avisando que tinham sido descobertos. O Naufrago abriga a bela índia em seu peito, a protegendo com seus fortes braços e segue em direção a outra margem, atravessando por entre as pedras.

A lança certeira do índio mais forte atravessa a distância e penetra nas costas do náufrago, perfurando o seu coração e o coração da bela índia. Eles caem para trás, sumindo na água.

O índio mais forte da aldeia festeja feliz e ordena que seus capangas tragam o corpo do náufrago e a bela índia, que ele julgava que estivesse viva.

Os ágeis capangas logo chegam ao local e surpresos nada encontram… ou melhor, encontram um coração de pedra marcado pelo furo de uma lança.

E, minha avó, para provar que a história era verídica, nos levava ao jardim onde mostrava um coração de pedra encostado numa velha parede…

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