Mauro Demarchi

Aprendendo sempre!

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Quando a infância era o centro do mundo

Na fotografia em destaque: Festa de bodas dos meus avós: um reencontro que simboliza os laços que resistem ao tempo — entre primos, tios e a memória de um tempo em que estar junto era o mais importante.

Houve um tempo em que o mundo cabia em uma rua de terra batida, num bairro simples chamado Jardim Paulista, em São José dos Campos. Era ali que eu morava com minha família, numa casa modesta, onde cada canto guardava histórias que ainda hoje aquecem a memória como um cobertor em noite fria de inverno.

As noites de verão tinham um brilho especial. O céu, sempre tão estrelado, era o teto perfeito para as brincadeiras que se estendiam até tarde, quando o tempo era medido não pelo relógio, mas pelo chamado das mães ecoando pela rua. Brincávamos de esconde-esconde, de pega-pega e, claro, das eternas peladas no campo improvisado do quintal do vizinho. Foi ali, com uns oito ou nove anos, que vivi um dos meus primeiros “dramas”: ao tentar recuperar a bola chutada para o mato, acabei caindo num formigueiro. A dor das picadas passou, mas a lembrança virou anedota contada e recontada entre risadas.

Nos meses frios, o desafio era outro. O inverno paulista era implacável dentro daquela casa de paredes finas e chão gelado. Dormíamos encolhidos, cada um tentando esquentar a si mesmo com a pouca coberta que havia. Mas havia um certo encanto também naquele desconforto: o silêncio da madrugada, o barulho distante dos carros, e o calor que vinha, ainda que sutil, da presença uns dos outros.

A rotina também incluía a fé, que nos acompanhava desde cedo. As missas e novenas na Igreja de São Judas Tadeu eram momentos sagrados, e a igreja vivia sempre cheia. Lembro-me das procissões, dos cantos, do perfume do incenso e da fé estampada no rosto dos fiéis. Era um tempo de comunhão — com Deus e com a comunidade.

A escola foi outro palco importante da minha infância. Lá, aprendi muito, mas também enfrentei as primeiras batalhas da vida. O bullying era presente, mas com coragem e uma força silenciosa, enfrentei as provocações. Descobri cedo que preferia fazer meus trabalhos escolares sozinho. Não era isolamento, era precisão. Assim consegui construir, por exemplo, réplicas em cartolina da Torre de Belém e de Brasília — trabalhos tão bem feitos que permaneceram expostos na escola por muitos anos. Também me lembro de um experimento curioso que realizei por volta dos 13 ou 14 anos, já na década de 1970. Depois de ler um livro, descobri que a luz do sol podia ser transformada em energia elétrica. Inspirado, montei um pequeno painel improvisado com fios de cobre e alumínio fixados numa placa de isopor, e, para minha surpresa e alegria, consegui acender uma pequena luz de LED. Para os padrões da época, aquilo era coisa de “professor Pardal”. Nem lembro que nota tirei… mas com certeza foi suficiente para me fazer, pouco tempo depois, deixar as invenções de lado e focar em outras áreas da vida.

E havia também as visitas à casa dos avós, em Santo André. Essas eram ocasiões especiais. Reencontros cheios de carinho com tios, primos e avós, com quem construí uma cumplicidade que resiste ao tempo. A mesa farta, as conversas animadas, os jogos e as risadas… tudo parecia mágico. Não havia celular nem internet, mas havia presença, afeto e laços verdadeiros que seguem firmes até hoje.

Essas memórias não são apenas retratos do passado. São alicerces de quem me tornei. São as vozes da infância que, vez ou outra, ainda sussurram nos meus dias corridos, lembrando-me de um tempo em que o mundo era pequeno, mas a vida, imensa.

Rádio Jornal AW — Mergulho Profundo
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