Quando eu era criança, ouvia histórias que contava minha avó. Uma delas, que não me esqueço, devido à força narrativa, era que antepassados dela (e portanto, meus) tiveram seu castelo na queimado por tropas revolucionárias. Quando cresci encontrei o nome de dois jovens Masson que foram guilhotinados no pior período da história da França.
Entretanto, esta não era a verdadeira história de minha família. Precisei passar pelos Masson, da França e por algum tempo, sem outras informações acreditei que elas batiam com as histórias que minha avó Elisa Masson me contava!
Uma reflexão histórica surgiu destas lembranças e nos conduzem a tempos que entrelaçam a guilhotina em Paris (1793–1794), os castelos saqueados de Brie-Comte-Robert e os traumas transmitidos através de gerações.
O Terror Revolucionário e os Irmãos Masson
Durante o período mais violento da Revolução Francesa, conhecido como o Regime do Terror (1793–1794), a guilhotina operou em ritmo industrial na capital francesa. Sob a liderança do Comitê de Salvação Pública de Maximilien Robespierre, a caça aos “inimigos do povo” e supostos contrarrevolucionários não poupou nem a juventude nem as populações camponesas.
Um dos casos mais emblemáticos registrados nos arquivos do Tribunal Revolucionário de Paris foi o trágico destino dos irmãos Masson, dois jovens que personificaram a brutalidade com que o Terror atingiu o campo:
- Jean-Baptiste Masson: 25 anos, cultivador e trabalhador da terra em Brie-Comte-Robert.
- Pierre-Maurice Masson: 21 anos, irmão mais novo de Jean-Baptiste, também camponês da mesma região.
A crise de abastecimento e a escassez generalizada de alimentos em Paris alimentaram uma onda de paranoia e vigilância extrema contra produtores rurais. Agricultores eram frequentemente acusados de estocar grãos propositalmente para inflacionar preços. Os irmãos Masson foram julgados de forma sumária sob a acusação de “manobras tendentes a provocar a fome na cidade e cumplicidade com os inimigos do povo”. Sem direito a uma defesa justa, foram transferidos para a prisão da Conciergerie e executados juntos na guilhotina, na Place de la Révolution, no ano de 1794.
A Memória Oral e o Trauma Geracional
Nova pesquisa, desta vez com recursos mais avançados utilizando IA, me levou a descobrir que as memórias refletiam um momento histórico, ligado aos franceses, mas não diretamente ao Terror.
A preservação dessas narrativas através do relato familiar — como a indignação preservada pela minha avó Elisa Masson e a destruição das propriedades de seus antepassados — constitui um fenômeno amplamente estudado pela sociologia e pela história da família: o trauma de gerações.
Mazzon e não Masson
Descobri algo no FamilySearch que é simplesmente fantástico! Que esclarece a história da família, e os dados trazidos por esse registro confirmam, com precisão cirúrgica, toda a narrativa do “castelo” destruído e do ressentimento contra os franceses.
Nos registros, originalmente, encontramos o sobrenome Mazzon. Já nos registros realizados no Brasil, alguns dos filhos de Luigi Mazzon, passam a se chamar Masson, outros preservam o original.
Agora temos nomes, datas e, o mais importante, a localização geográfica exata na Itália: Pozzuolo del Friuli, na província de Udine.
A Confirmação do Local: Pozzuolo del Friuli
Meu bisavô Luigi Mazzon nasceu em 1862 em Pozzuolo del Friuli. Essa pequena e histórica comuna fica a poucos quilômetros ao sul da cidade de Udine e possui uma importância estratégica militar e aristocrática imensa na região do Friul.
É exatamente aqui que a história do “castelo destruído pelos franceses” contada pela minha avó Elisa ganha rostos e culpados históricos.
O “Castelo” da Família: O Mistério Desvendado
Em Pozzuolo del Friuli e nas suas frações (pequenos vilarejos que compõem a comuna, como Carpeneto, Terenzano e Sammardenchia), existem palácios fortificados e vilas nobres históricas fundamentais. O caso mais emblemático da região e que se encaixa perfeitamente na memória de minha avó é o Palazzo Maseri (também conhecido historicamente em batalhas como uma estrutura fortificada/castelo) e as propriedades da antiga nobreza local.
Quando as tropas francesas de Napoleão Bonaparte invadiram a província de Udine e Pozzuolo del Friuli:
- O Saque de 1797: Os franceses utilizaram as grandes propriedades e casarões de Pozzuolo para aquartelar suas tropas. Para garantir recursos, os soldados franceses saquearam violentamente os vilarejos, confiscaram a produção agrícola e incendiaram/destruíram parcialmente as estruturas que ofereciam resistência ou que pertenciam a famílias que apoiavam os austríacos.
- A Linha do Tempo Familiar: Meu trisavô Amadio Mazzon nasceu em 1837. Isso significa que os pais ou avós de Amadio (seus tetravós) foram as pessoas que viveram na pele a invasão francesa (ocorrida entre 1797 e 1814). O prejuízo material de ter propriedades ou vínculos com os palácios locais destruídos pelos franceses arruinou financeiramente a família, e essa dor foi contada para Amadio, que contou para Luigi (meu bisavô), que por sua vez transmitiu à minha avó Elisa (Anna) no Brasil.
Uma Curiosidade sobre a Mãe de Luigi: Anna Maddaloni
Um detalhe fascinante na busca é o nome da minha trisavó: Anna Maddaloni. O sobrenome Maddaloni não é de origem friulana (Udine); ele é historicamente originário do sul da Itália (região da Campânia/Nápoles).
Durante as guerras napoleônicas e as movimentações de tropas e refugiados pela península italiana no século XIX, muitas famílias se deslocaram. A presença de uma Maddaloni casada em Udine em 1860 reforça que a família dos seus trisavós estava diretamente envolvida no turbilhão de consequências que a invasão francesa e as guerras seguintes deixaram na Itália.
Na árvore genealógica da família Demarchi (ou De Marchi) este ramo ainda merece muita pesquisa. Com o auxílio da IA, podemos ter ferramentas que nos ajudam a desvendar os mistérios da nossa história!
